A poética Baixada Fluminense e um pouco de Poemas baixadenses

(por Moduan Matus)
Em 27 de agosto de 1981, lançamos o Manifesto da Poesia Baixadense [publicado no Encarte do jornal Correio da Lavoura de 10 e 11/10/1981], com o intuito de chamar a atenção para uma forma literário-poética que há anos vinha sendo deflagrada pela Baixada Fluminense em poemas, cordéis, contos, em parte da literatura de Solano Trindade, de Antônio Fraga, de Rodolfo Quaresma Filho, de Francisco Barboza Leite, entre tantos.
 Aparentemente tudo tomou forças com a criação da imprensa alternativa. Com a primeira edição do tabloide O Pasquim, em junho de 1969, impulsionando; nas publicações da revista Equipe, e no lançamento da coletânea de contos Primavera Relativa. Essa forma passou a mais visível na literatura realista veiculada pela necessidade de se expor as desigualdades sociais de então; em cálculo presumido, dois anos antes da revogação do AI-5, de dezembro de 1978. 
Essa pauta, uma literatura de protesto contra um crescimento desordenado, de reivindicações de liberdades e de direitos; passou a portar parte da voz da região, formada em sua maioria de subúrbios e de guetos [bolsões de pobreza ou de miséria], que há décadas deixara de ser a próspera zona agrícola, produtora e exportadora de laranjas; para se desmembrar em novos municípios e todos esses municípios virarem áreas de loteamentos, de quase nenhuma infraestrutura; para servir de moradia-dormitório à mão de obra recém-chegada do nordeste e de outros lugares do país para aqui se juntarem a população de poucos recursos, em visível desigualdade [a baixada passou a ser conhecida por apresentar altos índices de pobreza e de criminalidade], dessa maioria, em aumento superpopulacional [a exemplo a população recenseada, de Nova Iguaçu. Do ano de 1950: 145.699 hab. E de 1980: 1.094.650 hab.], da periferia-satélite da cidade do Rio de Janeiro, formando parte da área metropolitana.
Surgiram movimentos reivindicatórios, de associações de moradores, de profissionais da educação, de estudantes, da Pastoral operária, de pequenos jornais, de mulheres, do movimento negro, de partidos de oposição e da Comissão de justiça e paz. E nós expandimos a literatura, de forma alternativa, colocando os nossos versos nas ruas, pelas portas de aço do comércio da Baixada Fluminense.
Nesse período a censura ainda cerceava manifestações, mas aos poucos as mazelas e o modo de vida precário da população eram expostos através de grupos; com denúncias de estereótipos, causas de estigmas e das falácias políticas; mas também falando de seu desenvolvimento histórico, econômico e cultural.
Em março de 1982 lançamos o livrete “Poesia Baixadense - Suor, sal d´ação”, Ilustrado por Vanderley Marins; com poemas de Franschisco Amebuanda, de Moduan Matus, de Dejair Esteves da Silva, de Thadeu Ferreira e de Luiz Coelho Medina. Poemas estes que montam o cenário regional do início daquela década.
Numa busca mais detalhada observamos que a Baixada Fluminense há muito tem sua verve poética, e indelével, atravessa décadas em historiografia, servindo de reflexão e querendo benfazejas, equidades e considerações. Escritores, pesquisadores, leitores e moradores perseguem um melhor desempenho, de reconhecimento de igual para igual dessa região, que não é melhor nem pior que outras, mas que notadamente tem sua característica mais marcante nas pessoas que lutam por ela e se orgulham em pertencer a ela.
Como socializar tanta desigualdade, inclusive enquanto periferia? 
Um pouco da poesia baixadense:


Uma cerveja baixa renda
Numa birosca
Refresca, descontrai
Bom se for gelada a tosca
À rasca
Quintessenciar
Entre conceito e preconceito
Lugar e não-lugar
Objeto e coisa-em-si
Pertença
Despertar
Mas há quem perca o glamour
Há quem passe acolá
Mesma estada
E há quem tenha fetiche
Ao dono do bar.                                 ModuanMatus.


...


Antes garagem
Agora espaço
Placa de aviso
E bomba de lava-jato
O molho secou
Água
Rua desengarrafou
A desigualdade social
Entre as pontas aumentou
Vê-se de longe:
- Não temos vagas.
Não temos o equilíbrio
Como se suporta
Ser celebridade usurpadora?
Para onde vão salário e erário?           ModuanMatus.


...


A casa, nosso ninho
Porta: saídas e entradas
Aqui um passarinho tem um ninho
Um palmo acima de nossas cabeças
Como sua casa.
Nos galhos
Que a dama-da-noite embasa
E ao luar exala
O doce perfume da flor
Ele tranquilo repousa meio ao dia
Aos frutos
Asas de degustador.
Saiba pelo quintal passarinho
O prazer em te acolher
É o jeito de agradecer
Ao seu instinto confiante
De nos escolher.                                    ModuanMatus.
...

Por meio dinheiro
Empanado com macarrão
Manjar e refresco
Arroz e feijão
No restaurante popular
Uma opção.
Seja quem for
De onde vier
São cidadãos
Todos gostam de comer fora
Gostam da convenção
E, ao menos, ao sanitário
O lavar de mãos.                               Moduan Matus.


...


Dragõezinhos
São calangos do quintal
Adoram moscas podres
Das goiabas voadoras
Mas que não passam
Do suicídio ao chão
Ficando para semente
E revolvem
E crescem.
São ciclos e reciclos em degustação
Sem locupletações
E sem matérias achando
Que estão abafando
Com lucros e invólucros.
Eles, numa cadeia alimentar
- todo o mundo de todo o mundo -
Nem se importam
Com qualquer boca de fogo

Ou com a durabilidade do sistema solar.           ModuanMatus.


...


O que está na moda
Na cidade onde tem
Fashionista administrador
É o cortar de bonde
Paraíso do dissabor
E o ir e vir de trem.
Paradas ficam na poeira
Meio as brancas bandeiras
Bem do alto rola bosta
Num desfile de chapadas
Entre brejos e encostas
Numa terra de ninguém
O paço de salto alto
Não denota a corrosão
Na súcia que logo vem
E as pessoas naturais
Nas avenidas e passarelas
Já não posam mais
Só sonham com o amém.                                        Moduan Matus.


...


Fast food pelas esquinas
E mercadorias vencidas
Contradizem tal gula
Exibida na tevê
Em xeque manufaturas
De saudável bem querer
Enquanto frutas caem espalhafatosas
E abandonadas, começam a apodrecer.
A adolescência se divide entre o merchandising
E  as fotos dos trepados no tronco da goiabeira.
Um abismo enorme separa o gosto da terra
E outro maior a corrente da cachoeira.                        Moduan Matus.


...


Pela manhã
Nos centros das cidades
Lugares tresandados
De fisiologismos
De números: um, dois e outros partidos
Diz do desdém de quem não mora
Do que não foi feito
E de quem não tem
Numa negatividade estrutural
De insubordinações maiores que futuns
De cachorros, gatos, ratos e
Baratas despejadas.                                      Moduan Matus.

...

O foco do mesmerizado
Estarrece
Pela busca da efemeridade
Em água, pó e pedra
Em nada filosofal
O espaço não se faz presente
É só uma obsessão
Transformada em bando
De eterno sonho
Embaixo do viaduto.
O que faz humanos transformarem outros
Em choldra de três tempos sem rumos?
Para onde aponta a arma?
Para aonde o balangar da bala?
O que espera o armador diante do armagedão?             Moduan Matus.


...

Da praça de Moquetá
Partiu a vereda de Chavascal
Pelas lembranças do lugar.
No Cenfor
Reuniões de associações
Moradores lutadores
Trocas de olhares
Às vezes de favores
Acirradas temperaturas
Do por fazer
Ao bem querer.
A praça marca também
Anos de reivindicações
Que alguns bairros não tem
E a maior marca do chão
É esse alinhavo pela união.                          Moduan Matus.

...

Num apartamento da cidade
Imerge o olhar ao interior
Mas o que se passa lá fora
Ainda é esse tempo
Que vai ficando paixão
O que se esvai da vista
Ainda é o trago no âmago
Ao algo coletivo por fazer
E quando passa o trem de passageiros
Às cinco da manhã
Desperta logo a vontade
De se aproximar
Ao que pode ser melhor
Ao calor humano.                                         Moduan Matus.

...

Ainda ontem
Era o parque e o circo
Preenchendo o baldio dos bairros
E a noite ociosa
Uma paquera pipoca
Na mão, em mãos
Meio-fio, banco
Esquina e drops de menta
Fazimentos da conversa saborosa
O benvir de novidades
O ecoar das gargalhadas
Às vezes adentrando madrugadas
Embrulhadinho
O circo tinha cheiro de pão
Esparramado
O parque embevecia por alto-falantes
O arejar não se distinguia
Era jorro
Essa forma que existia.                                       Moduan Matus.

...

Deu ruim logo
Antes do início do baile charme
Que de charme a porta não portava
Grupos em olhares acintosos
Rapinavam
Quem de fora das quebradas
Adentrasse meio passo de acesso que fosse
Salvo
Algumas cocotinhas meritienses
Boas de ficadas
Difíceis de pegadas.
Ali perdemos o flerte e a música
E ganhamos uma contração.                   Moduan Matus.

...


Livraria vai
Livraria vem livrar-nos
Vezes
Mais
O tempo
Que se fica sem um livro a menos
A leitura dividida
São operações em feituras

Para se calcular a lida.                              Moduan Matus.

...


Motos atravessando
Passarelas de pedestres
Banalizam a vida
Provocam estupor
E ferem
O direito constituído
Do ir e vir.
É nessa hora
Que os cavalos de força
Protagonizam abandonos
Montarias, encastelamentos
E mostram
Bem além do sobe e desce
De um exercício público
Sobre vil metal.                              Moduan Matus.

...


Três buracos
Feitos pelo calcanhar:
Jogo de búrica
E a gude ficava
De casa em casa
Por horas a rolar.
A terra inspirava e respirava
Vontades de brincar
Ou sonhar.
Ligado
Tais elos no tempo
Permite o atravessar
Mesmo na incerteza
Das coisas que podem
Não mais voltar.                      Moduan Matus.    

...


Algumas hombridades
Ainda não dizem respeito
Enquanto durar
A parte mercadológica
Descaracterizando
O verdadeiro sentido
Da cultura de consciência.
O que se fez na comunidade
De Jacutinga
Foram ofertas de calço roto
Enquanto famílias filmavam
Apresentações de outros pequenos
No centro comercial.
A linguagem continua a mesma
Mas algo de desumano ainda distancia
Portugal de Guiné-Bissal.                                   Moduan Matus.

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Em um pique bandeira
Às vezes
Se tem o tesouro nas mãos
De se sentir rei ou rainha
E quando se cola
Desmoronam-se os castelos
Erguem-se bloqueios
E tudo parece feito de inércia
Na perspectiva finita
De não se passar
De um faz de conta.
Logo uma mão amiga nos transporta
De volta aos sonhos
E quando alcançamos a coroa
Percebemos verdadeiro
O momento real.                                              Moduan Matus.

...


Menino mochileiro
Todo besta
De radiotransmissor na mão
Pensa que alça voo
Mas é avião
Que sempre aterrissa
Podado
Dopado da imaginação.
Uma busca constante
O tênis que marca
Camisa combinando
Com bermudão
A vida virou baile
Perspectiva de dança
De todos os lados
A maioria do que se vê
São fantoches
Sob manipulação.                                     Moduan Matus

...

Pelo contágio do suingue
A verve
E o sangue que ferve
No salão do Utopia.
No bailar das cadeiras
Só pelve
Bem à vontade
Entre as borbulhas
Que nos servem
Nos cantos das mesas.
Nosso subúrbio
Também se faz de quimera
E amizade
Enquanto sua no entreter
Da espera.                                       Moduan Matus.

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No canto da praça
O óleo de fritura usado
Na paisagem de plantas
Em terra se aterra vazado
Escoamento gordurento e
Pelo fio a esperança
Corta o ar do desagrado
Pousando no magote
De embalagens descartáveis
Perto do muro.
Adiante o cheiro do bife
Em carne triturado
Batata frita e
Toucinho defumado
Parece azinhavrado.                Moduan Matus.


...


Entrando pela noite na Baixada
Uma profusão de letras
Marcam a segunda década
Movimentando saraus
Inspirando madrugadas
Em desabrochados poemas pelas estradas.
E que tanto de ideias
Saem daqui para ali
Andam de cá para acolá                                                                                                                    
Feito buzzmarketing
A se propagar
Já são tantos poetas
O indicar em tantas setas
Que chegam a coincidir
E o insight existir
Para decidir aonde ir
Meio a tanto chegar.              Moduan Matus.

...

A cidade
Parecia pertencente
A uma milícia municipal
Cercada por leões de chácara
Gorilas e bichos em serpenteios
Desfilavam suas máscaras
Feito um baile de carnaval
Lembrava Madureira
No braço de Natal
Aquele poder centralizado
Um zoológico
A vida de gado em curral.
Era esse o pressentimento
Por estar ali
Mas com forte
Desejo de asas.                                   Moduan Matus.

...

A água escassa
Apanhada em barril
Rolante
Marca uma adolescência
De recursos parcos
Num solo pífio
De um tempo fosco
Vingado no peito e na raça.
Mas depois da roupa lavada
Absorve-se a paz quarada
Deixando escorrer agruras
Em águas passadas
E a sede que se sente
Adiante
Tem muito mais possibilidades
De se fazer saciada.                           Moduan Matus.  

... 


A cajazeira foi-se por motosserra
Da Rua Paiva Teixeira
Mas o verde e o amarelo
Ilustram o azul e o branco
Rebuscando a memória
Dos tempos de sabor
Depois de algumas pedradas
Quando o troféu depois de consumado
Era consumido
Energia
Meio a saliva.
Os pássaros também se foram e
Até a terra
Está escondida!                                                 Moduan Matus.

...


No Inconfidência
A derrama de chumbo
Faz o metal da vez
De quem quer explorar a mina
Dos nóias e dos desarvorados.
Na disputa toma lá dá cá
Dedo a dedo
Mão a mão
Boca a boca
Bala a bala
Fica essa troca
Até a próxima turma.                     Moduan Matus.  

...


Noite de seresta
E um saudosismo
Ecoando ao ar livre
Lembra madrigais
Que não existem mais
Mas o que se vê a cada rosto
À lua exposto
Na Praça Santos Dumont
É um brilho único
De quem sabe fazer da hora o acalanto
(e não o pranto!)
Em sintonias celestiais.                                         Moduan Matus.

...


Caminhões ainda pingando
Cheios
De areia lavada
Cruzam cidades
No asfalto da baixada.
Placas de Seropédica
Placas de Itaguaí
Indo para todos os lados:
Guapimirim, Magé e Paracambí.
O Rio de quem nada
No oco dos redemoinhos
E a água que se precisa
Tomando
Outros caminhos.                                          Moduan Matus.


...


Caídas no valão
Carcaças, sacos e pneus
Presos a entulhos da desconstrução
A turva água
Se junta
Erguendo o paredão
Cortando a baixada
Cortando o coração
Formando o esquecimento
Sonho em decomposição
Principalmente nos olhos fechados
Por falta de visão.                                           Moduan Matus.  

...


O que se vê do trem
À máquina
À óleo
De Guapimirim
É o registro bucólico da paisagem
Em pés descalços
Carroças
Bichos soltos
Bicicletas
E longos cumprimentos
Que reafirmam a esperança do amanhã
Em meio ao que caminha
Antes de ter que se fechar a janela.                    Moduan Matus.


...


No templo do Jardim Canaã
Uma soma divinal
De agasalhadas ovelhas
Cedem a lã
A perdulária dos pastores
Que paulatinamente
Contam carneirinhos e sonham.
E no pau oco
Santos podres
No pau maciço
Santos padres
Em missionárias aberturas de lojas
Com banquinhos de ordenhas.                      Moduan Matus.

...


A lisura do barro
Marcando a descida
Do morro do Caonze
Feita em carrinho de rolimã.
Era marcante a infância
Que rolava.
Das marcas e do mercúrio cromo
Nas mãos das meninas
Que aguardavam
Que torciam
Que cuidavam
E ao toque da pele se arrepiavam.
Ficaram elos
Feitos de um ciclo erguido no tempo
Um tanto desengraxado.                                           Moduan Matus.

...


Assoreadas famílias ribeirinhas
Quase valeirinhas
Subsistem
Na rua da amargura
Num sem números
Sem premissa
De outro canto ou augúrio
Puindo roupas
Poluídas de restos, ratos e
Resquícios de abandono
Na grota funda da desigualdade
Enquanto o álcool da birosca
Desinfeta, desobstruindo

Turbulências paternais.                                   Moduan Matus.

...


Dizimando o ambiental
Abreviando a matéria
Tradicional igreja
No centro de uma cidade na baixada
Cortam as duas árvores cinquentenárias.
Esvai-se cerne e seiva
Alma do seu estacionamento
É que os dízimos
Não são diários.                                          Moduan Matus.

...


Planos de saúde
Jogam com
O medo-de-morrer
Versus
Estou quebrando
Enquanto patrocinamos
As camisas e bem no centro
Da cidade
O que era caridade
Morre agonizando numa pelada
Enquanto erigem
Os louros
Da anticidadania.                     Moduan Matus.

...


No dia internacional do brincar           (28 de maio)
O anel
Feito ciranda vai passar
Feito elo
Rosa dos Ventos
De todas as ruas
Na cidade vai rodar
Feito pique
Boca de garrafão
Feito corda ou cordão
Em Campo Alegre vai cantar
Ai todo um Paraíso
Feito em peão
Num balanço, rodopio ou bambolê
Marcando o chão daqui
Virá se resgatar.                               Moduan Matus.

...


O galho enfiado
No buraco do asfalto
Haja de pata-de-vaca
Sinaliza o abandono
O rombo
E chama a atenção:
Não pagos os impostos
E isto é dever
Ao estado, a realização.
Alguma coisa
Entre a ordem e a desordem
Perde-se em erosão.
Se cresce o consumo
Cresce a população
E o problema maior
Será quando começar
A faltar quebra-galhos
Para a sinalização.                  Moduan Matus.


...


Regozijo pelas trilhas
Em bicicletas no campo
Em Paracambí.
Frescor
Comunidade simples
Equilibrada no silêncio
Feito de respeito
Refeito em harmonia
E assim poderia
Ser nossa eternidade
Depois que a sabedoria
Reconhecesse a igualdade
Um dia.                                                           Moduan Matus.

...


O jardim de Éden
No momento
Feito de restos do sacolão.
São organismos desorganizados
Reveses do chão.
A flor oculta
Resplandece o opaco
Borboletas metamorfoseadas
Mariposeiam
Pousam na alvenaria e
Aguardam.                                               Moduan Matus.


...


Boiante numa térmica
Asadeltando
Acima da rampa
Se vê Mesquita
Belford Roxo e Meriti
Que na panorâmica ainda é Nova Iguaçu.
Estão unidas em um
Cenário em construção
Entre vias evasoras de divisas
E conquistas sociais.
São passeios em movimentos
Fraternidade de trabalho e moradia
De alardes
E de momentos de alegria
Que ainda mora a simplicidade.                Moduan Matus.


...


Em pataco-pataco
O trem
Lembra bem
O parceiro Robson Gabiru
Em sacações
Seguindo a linha
Na clave de sol
Das canções que lhe fizeram
Ou das canções que ele fez.
Lembra a mão invertida, inquieta
O samba de breque e
Pitorescas odes
Contidas do inusitado
Repletas de regiões
Feitas em pedaços de céu
E de incontidas emoções
Para se tirar o chapéu.                  Moduan Matus.


...


Um som
Vaza quarteirão
Pra lá do permitido
Pela rua se propaga
De um carro aberto.
Na casa do lado a criança chora
Na outra em frente o cachorro uiva
Já o ancião nem liga.
Pessoas fecham portas, postigos e janelas
Enquanto
Meninas adolescentes
Levam seus minúsculos shorts
A um passeio de vai e vem.                                  Moduan Matus.


...


Nesta manhã
As flores naturais da íris
Se abriram
No jardim da saudade
Meio ao esplendor e a nostalgia
Velávamos o inanimado.
E os pássaros em sinfonia
Redesenhavam no cinza
E entoavam ao dia
Que caminhava, silencioso
Rumo às trevas.
Mas que num piscar de olhos
Nesse lubrificar de lágrimas
O amanhã

De novo se abrirá no eterno.                Moduan Matus.      


...


Na Vila Operária
Pescaria e caçadas
À bagres e muçuns
E o almoço de amanhã
Garantido com milho
Cará, aipim, inhame
Ou batata doce.
Abóbora só com coco
Ou a sobremesa depurada
Em caldo de cana que
Continuava tão indispensável
Quanto o bom do insofismável.       Moduan Matus.


...


Entre a plataforma
E a composição
Uma vida
No vão
Do vai e vem
Quase em vão
Da rês
Na rotina
Capital
Movimentando-se
Em um curral
Sem altercação.                 Moduan Matus

...


A black music
Em Mesquita
Futebol Clube
Falava do power
Em danças
Nos anos setenta.
Cheio por fora
E por dentro
Identidade
Em movimento
Diferia
E tanto mais
Se conhecia
Duma arte
De periferia.              Moduan Matus.

...

Ainda essa
Coadjuvancia
Nos fazendo
As piores estatísticas
Suco de um lado
Bagaço de outro
E a máquina de sempre.
Ainda
A transportação
Do que o do outro é melhor
E bem encaminhado.
Ainda
O faz de conta civil
E as rédeas do poder
Enclausurando
O amanhã.                                      Moduan Matus.

...

Enraizados
No movimento hip hop
Cultores metem a cara nas ideias
Do amadurecer
Pra lá de colorido das ruas.
São linguagens alternadas e
Simultâneas
Comunicando
Sentidos sociais
Bem gra(fi)ttificantes
Mas equidistantes
Jamais.                                           Moduan Matus.


...


Inditosos
Armam-se endolando
À gerações assaltando
Espocados em seus
Fogos de artifícios
A luz do dia
Em estado de euforia
Face à alvenaria
No corredor
Do trem.
Feito em massa
O embarque é o achaque
E achar
Que é desembarque
Nessa direção da linha
Não vê o sentido
Que o outro vem.                          Moduan Matus.

...

Beijos e bocas
No frondoso foyer
Do teatro Procópio Ferreira
Na Rua Afrânio Peixoto
Sopraram ventos
Do “querer é poder”
Pela efervescente
Cultura alternativa
E em volúpias
De reconhecimento
De uma baixada participativa.                  Moduan Matus.

...

Câmeras de segurança
Colocam a todos
Num filme de ação
Polícia, claquete, bandido
Desvario na população
O ritmo mais alucina
Dispara a sofreguidão.
A ponte que caiu
A barreira que chegou
O medo, a insegurança
A bala perdida
E o corpo que ficou
Já que analisam as imagens
Por que tudo aumentou?                          Moduan Matus.

...

Na porta
Da Lira de Ouro
Vão saindo notas musicais
Através do tempo.
A arte também se fortalece
Nos pilares do passado
Face ao quase esquecimento
E de mão em mão o tom renasce
De boca em boca o som revive
Os clássicos populares
Que sem tem memória.                               Moduan Matus.

...

Inúmeros dejetos
Ainda em Gramacho
Cobrem o corpo do desaparecido.
A sua última viagem
Velada pelos urubus
Apeou meio aos escombros
E decepou-se fragmentado
Entre o que a terra
Jamais comerá totalmente:
O mal que faz o homem
A natureza
E os bichos não comem.              Moduan Matus.

...

Ser depositário
Invólucro de uma região
Entre focos miseráveis, obras públicas
E privadas paradas
Nos bairros sem praças
Nada de hard core nisso
Só nicho de poesia baixadense
E samba grande rio
Com suas alas suadas
Vestidas de realidade
Num espetáculo que todo mundo vê
Imposto
Pelos impostos que não se veem.                  Moduan Matus.

...

Quando o circo
Pousava no Rancho Novo
A Viga toda sustentava
Sonhos acrobáticos.
Deixávamos
De comer bunda de tanajura
De roer coco-de-catarro
E voávamos
Alegres
Feito passarinhos
Por debaixo da lona
De olho no picadeiro
E só de palhaçada
Comprávamos
Mais pipoca.                       Moduan Matus.

...

Ali
O despejo
Irregular do lixo
E uma orgia de roedores
No pantagruelismo malcheiroso.
A cara do desdém
Ermo de compaixão
Chega e vai embora
Sem se assemelhar.
Algumas crianças
Cortam caminho por ali
Abreviando o tempo.                  Moduan Matus.

...

A lua de sempre
Na Vila Nova
Quintal da rua
E na cantoria
Bongô e violão
Dias que se vão
E só de lembranças
Não são
É crescente a procura
Quando na praça
Cheia
O espaço míngua
Quando se propaga o som.         Moduan Matus.

...

O baião de dois
Em costelinha e
Queijo coalho
Norteia
E restaura o domingo
Ao longo do arrasta-pé
Na arte deste encontro
Em Jardim Pernambuco.
A brasileirice
Faz-se na mistura
Para que sempre
Permaneçamos únicos.      Moduan Matus.

...

Buscando essências
Capta-se
O frescor da manhã
Vindo da Reserva Biológica:
Água, húmus e vegetais
Fazendo tônico o dia
E seres predispostos
Em universalidade.
Agora
A invisível harmonia
A sensação de pertencer
Não mais se perceber
E se deixar rolar, feito pedra
E desaparecer no ar
Feito a música dos passarinhos.           Moduan Matus.

...


Mouca a ouvidoria
Não entra por um lado
Nem sai pelo outro.
Empurra com a barriga
Obtusas coisas do querer
Que vão caindo
No buraco do esquecimento.
A vista é quase a mesma
Poluída ano após ano
A vala aberta
Nunca fala
Dos transeuntes
Torcendo seus narizes
Que alguém destorce
Que algo distorce
O sentido destas coisas.            Moduan Matus.


...


Das tendas
Do povo cigano
Em Banco de Areia
O entoar e o alaúde
Marcava o tempo
Em esfumaçadas lembranças
E lampiões.
E a moça colorida
Sorridente
Que rodava
E na cidade passeava
Marcava
Platônicos corações.                      Moduan Matus.

...


Sentido de bandido
De berro à luz do dia
Forma a passarela
À trilha do papelote
Do desvio ao devido papel
Formando a mortalha
Sobre a horda
Semi-desatinada
Apodrecendo na quebrada
Onde assim somos nada.
Pinos vão se soltando
Pelos campos sujos
Em borbotões
Enquanto a lavagem
Faz-se no balneário
Frequentado de mansões
De carrões
Nos desfiles das ilusões.           Moduan Matus.

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No verdejar
Da nossa Maria Fumaça
O transportar
Mais que passageiro
Mais que historiografado.
O que fica
É um mergulho
Saudoso
No interior
Linhas atávicas
De frescor
Costurando antepassados.             Moduan Matus.

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Iguaria
De carne de sol e aipim
Do céu
Da boca
: palatal
Maturada em sabor
Tamanho família
Nesta festa anual
De São Vicente
Da ajuda
Do arraial.               Moduan Matus.

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Bueiros e
Sepulturas afundadas
Abrem os subterrâneos e
Nada de rolar cabeças
Que assoreiam a baixada.
O horror que se passa
Vive
Passado no velar de pavor
Ao passo da esbranquiçada barata.
O fogo-fátuo se alimenta
Eternamente do efêmero
Do monopólio e da mamata
E as baratas aguardam
Aquecidas em lumpesinato
O que cair na terra.                            Moduan Matus.


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Piches
Formando mosaicos
De personalistas garatujas
Remontam o cartão postal da paisagem.
A arte camufla a arte
E o abandono
Erguido em sifões, cimento
Cifrões e vácuos de progressos.
O que se agiganta
Parece um calço ou uma ferradura
Dando a ideia de uma marcha
Em rabiscos atabalhoados.                         Moduan Matus.

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O disco cortava o espaço
Mas foi ficando no tempo
Na beira da estrada
Para Belford Roxo.
Pista, círculos, pinos
Estratégias de pousos
De derrubadas
Desde a espera romana.
A luta
Marcava o compasso
Girando pela areia
Em tensão
Em suor
Nessa batalha
Até o desfecho final
Do jogo de malha.           Moduan Matus.

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Fechado
O posto de saúde agoniza
Fistulado ao pouco caso
Tendo ao entorno
Muitas casas
Muitas causas
Sem caucásicos
E nenhum calço
Ou tiro de misericórdia.
A paisagem em carcaças
Enferruja
O que um dia foi
De frutas nos pés
Meninos rurais
Cantos e passarinhos.               Moduan Matus.

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Grande é o circo brasileiro
Ronda o Rio
Em perspicazes pimpões
Encena a Baixada
São truões
Títeres a beira do samba
Em pândegas e peripécias
De simulacros em semáforos
E pernas de pau.
Pingentes de corda bamba
Descrevendo esperanças
Bonecos cheios de vento
Malabares de choça e sal
Expondo a alegre vida
Às máscaras postas em sinal
Maquiadas de chuva e sol.                Moduan Matus.


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A Praça dos Direitos Humanos
Tem até paredões
Mas com vultos altruístas
Tem manifestações
Almejo
De novas conquistas
São mãos
Palmo a palmo
A medir
A chama da liberdade.
Vejam!
São ideais
Que alcançam além
De simples ofertas
De lazer e vai e vem.               Moduan Matus.


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Acreditei em coisas que pressupunha
Serem verdadeiras
Até que florada das quebradas
Você se foi
Feita de outra ideologia
Ou ironia.
Agora tanto faz
Quem mente pelo poder
Se tiram da mesa o pão e
Essa desfaçatez de suster
O punhal no coração.
No vale dos esquecidos
Com poucos ipês
A parada é dura e
Qualquer porrada continua injusta!         Moduan Matus.


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Motos urbanas
Chegam e saem
Passam com a rapidez
Das mãos aceleradas dos mochileiros
Aos desejos ávidos.
Delivery de que?
Essa pressa conectiva e vicinal
Indica uma rede de insinuações
Estabelece famílias ou colônias
De seres assoberbados
Feitos de falso poder
E sonhos efêmeros
Drop out do que?                    Moduan Matus.




Rocha Sobrinho
Bêeneagá
Os trilhos, a estação e a chaminé
Ainda serve a cobertura
Ainda erige a história.
O que mora em cada canto de um lar
É feito de terra suor e argila
E oscila
Tentando retrucar.                                    Moduan Matus.


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Nos pórticos esquecidos
À beira das estradas
Passou a saudade
Guardando segredos emblemáticos
De sangue e paixões
Pela baixada.
O habitar da vida revela
Estes vãos esmorecidos
Entre o querer e o poder.
E a marca que resta indica
Ainda desconhecidos atavismos.                 Moduan Matus.



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Seu Darci
E Dona Benigna
Foco certeiro
Casa digna
E cem anos de comunhão
Marcando, pulsando
Forte feito coração
Na comunidade benquista
Da Damas Batista
Na Califórnia dreams.
Ali, meio, a poesia
Virava a noite e nascia o dia
Entre a harmonia dos olhos deles
E os toques da anarquia.                           Moduan Matus.

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Outra vez
O mesmo assaltante age
Mesma rua
Mesmo modo
Na mesma pessoa
Arquétipo baixadense
Virando moda.
Indignados whatsappam
Sentimentos
Até ao parente policial, que ri
Da escrota trama
Bem calhorda
Enquanto vai faturando
A horda.                                Moduan.

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A Estrada Zumbi dos Palmares
A senzala da Fazenda
E o cemitério dos Escravos
Em Iguaçu Velho
São marcas que ecoam
Nos tambores do tempo
Nos grilhões feitos e desfeitos
E evocam adormecidas
Terras quilombolas
Em aragem e semeadura
Para o broto da história
Reafirmar
Todo o saber dessa escola.                Moduan Matus.

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Na rinha
Em Caxias
Séculos cristalizados
Em breques brucutus
Travados em briga
De galos
Esporados e escoriados
De irrompidas e silenciosas
Alvoradas.                                            Moduan Matus.

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Meliantes
Durante
E depois
Refazem a praça
A ponto de vista
Indicando
Que ela é elaborada
Para uso indiscriminado
De interesses
Por tantas às vezes.
Pelos símbolos na placa
Transeuntes gestores
Parece pouco se importarem.                          Moduan Matus.


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Pastel
E caldo de cana na feira
Glicosam o domingo
De um sábado intrometido respingado de orvalho e
Outras substâncias.
Areia Branca e um mar de gente
Se aprisionam feito os passarinhos
Nesta gaiola
Mas
Algumas peças circulam livres.                                                     Moduan Matus.

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Ringue
Sem as vias de fatos
Uma contramão de motoqueiros
Oferecem seus joelhos reluzentes além das paralelas
Que poucos veem na Guadalajara
A avenida de Tancredo Neves, em tráfego doentio
Pelo visto jamais se alargará
Enquanto as linhas duplas forem finitas.                                     Moduan Matus.

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CAXIAS
Todo o momento
Passa a história
Que entre o dito e o não dito
Tem que se buscar.
É que nada se aprende
Sem memória...
Nem Pilar.                  Moduan Matus.

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Moçambique, Mena, Magé, Benguela
Cabinda, jongo, Quiloa, Rebolla
Guiné, atabaque, maculelê, Estrela
Bobó, berimbau, Zé Mussum da Gamba viola
João Candido, Solano, batuque, dendê
Monjolo, Maria Conga, calango, Angola.
Se negro é origem
Todos somos quilombolas!                               Moduan Matus.

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PAISAGEM INTERIOR
Homens não assoviam mais à noite
Escutam-se, ainda, vozes de algumas crianças
No acampamento.
Olhos faróis,
Buzinas ensandecidas
E um aparelho digital no porto.
O asfalto soterrou sons antigos
Mas a vida é a mesma em Itaguaí.
Percussão abafada pela novela
Mas alguém vela
Na indiferença do cachorro
E no chafariz, ainda
Um imaginário jorro.                            Moduan Matus.

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A poesia de beira-mar
A mesma de beira-mangue
No tempo quer voltar
Feito bumerangue.
A absorta Mauá em seu passado embala a rede
Refaz o singrar do último navio
No olhar do velho pescador
Na garça pousada a espera do futuro
Na estrutura do cais ou pintada na parede.
A poesia de beira-mar, a mesma do interior, em sambaquis
Sobe o rio
Na sede de voltar, feito bumerangue, feito aborígenes
A beber do equilíbrio do lugar.                                                               Moduan Matus.

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Tamanha a fúria
Pela verdadeira necessidade de se fazer justiça
Já que nenhum maná despencará por cá
Uma massa atiça feito trem abarrotado
Lata de sardinha, prato-feito, ovo pintado
E o saldão da carne de segunda, na terça, quarta...
Mulato-velho, feijão preto, pão
Que nem pobre-diabos amassam.
Tamanha a fúria parando de estação em estação
Que o tempo conserva feito lata de erva
Que rola feito bola e coisas pets
Navegando em canais da baixada fluminense
Enquanto o poder tentacula
No espreme-suga-e-bota-no-caixa-dois ou três
Ou mais de cinquenta percentuais
De não deixar políticas públicas
De nenhuma equidade ou quantidade aos demais
Tamanha a fúria
Ainda sem o fio da espada e cega, que nega
Renega e rega tamanha fúria.                                               Moduan Matus.

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CALOR EM GUAPIMIRIM
Agora é conseguir a cor da lua
Para pintar aquilo que se ama.
Romances não sabem esperar
As nuanças de cada fase.
Agora, pode ser a qualquer hora
Nem importa onde a lua esteja
Sempre terá seu brilho
Porque refletirá dedicação
Àquilo que a aproxima.
Pois em nós, o que era brincadeira
Se fez pacto de orgasmo, suor
E aponta no mangue
A botânica desaguada
Para todo o universo.             Moduan Matus.

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Lendo Bashô em
Paracambi, logo um
Haicai escrevi.                        Moduan Matus.

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Chata a maratona!
Mesmo morando
No Morro da mina
Descer
Três vezes por semana
Para apanhar água na bica
Transportando
Em cangalha humana.
Se tem arreio, tem montaria
E tem falta de freio
O completo
É desmedida patifaria.
Na piscina do prédio alto
O bronzeado turvo
Do superintendente de águas

Virado de costas.                             Moduan Matus.

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NILÓPOLIS
Queria passar dos oitenta
Mas moro no perímetro urbano da vida
Não passo dos sessenta.
O que aguça é essa vontade
De beijar mais flores
Nos anos da natureza
Entre as lombadas de São Mateus
E o Parque Gericinó.                                        Moduan Matus. 

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A casa do joão-de-barro
No alto das folhagens
Na estrada de Adrianópolis
Diz da engenharia
Da arquitetura
Da sustentabilidade
E de onde a chuva vem.
A natureza
Diz da segurança
E o homem do desdém
Se plantar
Na cor do lugar
Artificialismo além
Dessa morada.        Moduan Matus.  

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Um beco sem saída
Mil entradas e veredas
De um chão batido, saracoteado
De cheiro, de vozes misturadas, de roupas dependuradas
E de terra molhada.
Nos rádios, o dial num pagode uníssono
De muita paixão.                                                         Moduan Matus.

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BELFORD ROXO
Cidade reggae
Estrelas brilham nas poças do asfalto
Onde foscos passam apagando a luz
Do brejo.
Cegos de artífices
Meios a tanta clarividência
Não enxergam a imensidão
Da velocidade dessa luz
De algo que se chama lar
Do bater, no lábaro, o coração
E a arte plena
Desfraldada em explosão.                                                Moduan Matus.

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Entre laranjas e letras
Amália
Dias e
Processos
De escolarização
Aparam espinhos
(d)escrevendo
Quadro a quadro
Duma valorização
Da flor ao fruto
Do que alimenta
A baixada fluminense
Pela educação.                       Moduan Matus.

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O caminho de São João de Meriti à Pavuna
Discrimina alvoradas desarvoradas
Só em nomenclaturas
Sendo a mesma cultura
Em que a festa está na rua Amir Haddad.
Sendas e passarelas acampadas em campanhas
Do que se procura
Mesmo que desambientalize
Feito as frutas podres do Gullar
São gatos churrasqueados
Esqueletos
Vidas do ir e do voltar
Meio a tamanha descontração o ganha pouco
E o encantado ar.                                                           Moduan Matus.

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QUEIMADOS
Vivemos a incerteza de tudo
Olhando para o além
Vendo a certeza que tudo
Não está em ninguém
Assim renascendo
Em vital corrente
De silencioso Guandú
Deslizando na vertente.                 Moduan Matus.

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Tráfego intenso
Tráfico idem
Na calçada ônibus sobre
E seres pelas paredes
Cabê-los, só arrancados
A ancialidade da estrada de Madureira ansia
De Augusto Távora a ânsia
De tudo se detona enquanto nada se denota
Vidas interrompidas, távolas de infrações.
Desmatada, um paredão, está a montanha
E parece se inflar de todos.                                             Moduan Matus.    
               
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Movimentos da dança
Baixada numa roda
O girar de carisma
De João Alves
Torres Filho
No rito omolocô
Candomblista e babalorixado é
Joãozinho da Goméia
Entre folhas no terreiro
Bahia búzios de Inhambupe
Caxias de mel
Num Rio doce de
Oxum e de Janeiro.               Moduan Matus.

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SEROPÉDICA
A história ali
Doada em sangue, sêmen e seda
Escorria no tempo, entretecendo
Marcando espaços
De um pulsar
Acima das grandezas inúteis
Das vidas fúteis
Magnânimo em carradas
Trafegando, ligando por um fio
Fazendas e benfazejas
De próximo admirar
Marcando, indelével

O lugar.                                       Moduan Matus.

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"Em pataco-pataco
o trem
lembra bem
o parceiro Robson Gabiru
em sacações
seguindo a linha
na clave de sol das canções
que lhe fizeram
ou das canções
que ele fez.
Lembra a mão invertida, inquieta,

o samba de breque e 
pitorescas odes
contidas do inusitado
repletas de regiões
feitas em pedaços de céu e
de incontidas emoções
para se tirar o chapéu".      (Moduan Matus)


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MARCAÇÕES FERRENHAS
No pejorativo depreciativo chama-se: favela
No assistencialismo subestimativo fala-se: comunidade
No administrativo e subjuntivo escreve-se: unidade regional
No demagogismo eleitoreiro marca-se: zona
No milicianismo locativo diz-se: território
No narcotraficantismo faccioso grita-se: área
No religiosismo anastesioso clama-se: ovelhas
E, com isto decreta-se: aberto o pastoreio
No subsistir duma população
Entre promessas e migalhas
Aplaca-se um curral de servidão: suas reses
Ao estigmatizar um novo lugar-comum
Ou outro campo em concentração.                   Moduan Matus.

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Numa rua do Xavante
No pó de pedra
Um heavy rock mistura sonhos
De Nova Aurora
E brita do Engenheiro Pedreira
Ao ar pesado
Feito em protesto
Em catarse
Em manifesto.
E os arranha-céus
Fechados em seus fumês
Ficam a quilômetros de distância.                     Moduan Matus.

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Tapetes de sal na Baixada
Indica um caminhar
Entre pedras
E gotas de suor.
Efêmera
A vida se evapora
Desmanchando as cores
Que formam o amanhã
Mas continua sendo
A mesma que conserva a semente
Este solo
Que concebe o vislumbre
E forma o corpo
De tudo que nos constitui humano.                                                                Moduan Matus.


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Se arriscando
Um trio
Num triciclo
Por pouco não roda
Na escancarada
Passagem de nível em Japerí.
Pela quase cancela
Vozes gritantes
Além dos (a)pitos
Ao que rola todos os dias
Ao redor da vida passageira.         Moduan Matus.

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Entre as flores do jardim
E as árvores frutíferas
Ouve-se o Bom dia!
No canto unissonante
Feito manifesto
E manifestos de passarinhos
Igualitários na Baixada Fluminense
Saudando o olhar da educadora
Armanda
Álvaro
Alberto
Com seu libertário livro
Aberto
Sobre a bruma
E o deserto.                                                                   Moduan Matus.

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Virando o dia
Pão com mortadela
Refrigasoso
Em Valverde
Na padaria
E vigor
Na pradaria
Felizmente a vida
É o monumento
Do nosso estar.                         Moduan Matus.

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CÍTRICO CÍCLICO
O futuro na mente
O passado na memória
Um passo à frente
Faz-se outra história.
Na mudança das sombras
A explosão de ser todo o fundamento
De Waldick Pereira, Ruy Afrânio e Ney Alberto.
Esse é o bem viver.
Esse é o movimento!
Desse lado de fora nasce esse outro dentro
Que vai erigindo a essência do nosso ser em pensamentos.          Moduan Matus.

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Normal em Vila Norma
São passos entre Mesquita, blecautes, Edison Passos
Calçadas de obstáculos, pulos pelos buracos e um Deus nos acuda!
São vilas normais
Seus cavalos
E vira-latas, agora, arrebentando sacolas.
E o que fica lá atrás, pela infância, pela escola
São artes conceituais.                                                                   Moduan Matus.

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NOVA IGUAÇU
De índios, brancos e negros a terra de tantas histórias
Da aguardente e do açúcar de cana
Do café, da laranja e de Rangel Pestana
Tens em teus filhos a tua memória
Tens em teus caminhos o teu tesouro
És a Iguassú velha de estradas
Em filhos que povoam o mundo
Mãe municipal pela maioria na baixada
Seus filhos que quanto mais crescem
Mais ainda és lembrada.
Nova Iguaçu, cidade de amizade
E preservado o seu ambiente
Aí mais sua cultura estará viva pra gente
E você sempre “nova” se eternizará.                  Moduan Matus.

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A massa
Não cabe na silva
Não cabe na costa
Porisso o punk
O samba
O rap
O funk
Meio a fumaça
Que amaldiçoa a farsa
Meio ao abarrotar da fossa.           Moduan Matus.


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Carros no passeio público
Estacionados na insensatez
Carrinho de bebê no asfalto
Foi-se o tino
Faltou o tato
A criança chora em buzinaço
De leite é a lei da passagem
Ao desenvolvimento
A placa de atenção nada ouve
Nada vê
Em vermelhos riscos transversos.                 Moduan Matus.

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A cultura do aipim
Em variada produção
Do plantador de Tinguá
Ao efeito palatal
Servida em profusão
As mãos
O doce
O sal
E a culinária da Terra
Um feito artesanal
Ofertada aos gastrônomos
Numa festa
Sem igual.                             Moduan Matus.

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O mato cobre as placas de sinalização
Aviso:
É proibido bangue-bangue nas ruas
Na hora da troca de turno
Entre os flagelos
E perto das desigualdades sociais.
Aceite o toque de recolher
E desovar das tangentes
E, chovendo
Não saia de casa
Pela rua da lama
Prefira a travessa dos alagados
Perto das pontes dos rios assoreados
Respeite as barreiras
E aguardem com paciência
E com cuidado
As retroescavadeiras.                                 Moduan Matus.
       
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Não estão com nada
Larvas
E águas estagnadas
Margeando vias em Xerém
E na “saúde” tudo certo
Na “defesa” tudo bem
Sapatear de sacolas plásticas
Eh! Fumacê que não vem!
Ecoponto
Mar de lama
Tá manha improbidade
E o nascer tão arriscado
Fadado de Nova Belém.        Moduan Matus.

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O pouso em Queimados
Libera as asas
Dando base a imaginação
E a semeadura abre a terra
Em regozijo de acasalar.
Enquanto se tem suor
Para regar
São as letras que plantam
A arte do lugar
O vento sopra
E algo se forma em canção
Tem cheiro de flores
Tem nuanças de cores
E alçam do chão
Mais do que a terra
Uma civilização.                          Moduan Matus.

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Mais que um sopro
O rio flui
Flumen
Braças
Formando a baixada
Sombra atlântica de flora
Escorrer natural da fauna
E do Jacutinga em memória
A água grande
Que o tempo assoreou
Que em tons de cinza
Alguém misturou
Mas que gota a gota
Meio as lágrimas
Ainda conta a sua história.                         Moduan Matus.

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Nossas torres iguais
Em movimento atravessam cidades
E são lights
Esqueléticas
Como o gasto de energia
Da Baixada dormitório
Mesmo assim
Num átimo de lucidez
Prolongam os horizontes
E rompem auroras
Sempre
Em busca do sol.                       Moduan Matus.

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A cidade
Sob os edifícios
Cada vez mais afundada
Bueiros
Estruturas
E letreiros
Marcam imersões
E os novos horizontes
Mirantes de coberturas
Bloqueiam o canto do galo
O verde da alvorada
E o que fica
É espaço insustentável
Quando algo se vai
Na paisagem roubada.            Moduan Matus.

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Oba!
Toca para Jaceruba
Nesta festa de bananas
Para um bolo de fubá
Num mergulho em verde mar
Onde viste a ararajuba
Ou confundiste a ararinha
É bom solo sertanejo
Casa de pique e peteca
Vila velha estação
Pesca de fruta jogo
Pinha amarelinha
E se eu perder você me ganha
E seu eu ganhar
És prenda minha.                                 Moduan Matus.

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Vias
De poucas alamedas
De medos
E arremedos
De megalópoles
E vícios
E frontispícios
O cobertor no chão
O cão
E o sonho
Além da realidade
Acima da marquise
Em reprise.                               Moduan Matus.

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O sol
A moça
E a laje
Interagem
Em Jardim Gramacho
E a sinestesia
É o achado de fato
Em foco de harmonia
Nada vale mais
Nesse êxtase
Nem a poesia.          Moduan Matus.


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É uma curva da estrada
Acho que passa Montevidéu
Acho que chega ao Parque Estoril
Acho que é Zé o da birosca
E Alcir
O cozinheiro que serviu
Acho que foi o seu tempero
Na galinhada caipira
Ou a arte do fogão de lenha
Ou o mexe remexe de Alzira
Na panela de angu
E no tacho de taioba refogada
Tudo estava tão perfeito
Tudo com tanto jeito
De som, folia e cantoria
Em noite enluarada.                      Moduan Matus.   

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Crianças descalças brincam
E pulam a vala do esgoto
Não esgotado
No dessacralizado bairro
De Santa Rita
Ou do Rancho Fundo da infância.
Acima de suas cabeças
Paira a bolha-faixa-pensamento
De reivindicação:
Queremos mais línguas negras!
Somente de jamelão.                                  Moduan Matus.

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Debaixo da lâmpada apagada
No comércio fechado
O assalto, de fogo
À mão armada.
Nem só de ônibus e deserto
Vive a tensão do ponto
De estada ou de partida
Nesta estrada.                                               Moduan Matus.

...


Numa praça do subúrbio
Skate, futsal e vôlei de areia
Entre apartamentos de classe.
Um espaço aberto e o outro...
Segregacionismos
E um povo acrobático
Único, evoluindo
Na arte do grafismo
Exposto no paredão.                                          Moduan Matus.

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Uma injustiçazinha ali
Logo
O gerar de violência e o bico do coturno.
Basta ver a paisagem em sua alvenaria
Desarquitetada
Como um incitamento.
A tabuleta na entrada do formigueiro diz;
- Não admitimos tamanduás.
E eles estão aí.
Aérea a equidade ainda desconhece
Campo de pouso
E o que fica é essa espreita marcando o tempo.        Moduan Matus

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